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Transporte público não pode tratar o passageiro como obstáculo

Transporte público não pode tratar o passageiro como obstáculo

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A discussão sobre as catracas duplas nos ônibus de Aracaju pode parecer, à primeira vista, apenas uma questão de estrutura dentro dos veículos. Mas o debate levantado pelo vereador Breno Garibalde revela um problema maior: que prioridade está sendo dada ao passageiro dentro do sistema de transporte público da capital?

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O assunto não é novo. Segundo o parlamentar, a questão vem sendo discutida desde o ano passado e ainda não encontrou uma solução definitiva. Enquanto isso, quem utiliza o transporte coletivo continua convivendo diariamente com as características de um sistema que deveria, antes de qualquer coisa, tornar a mobilidade mais fácil.

É preciso olhar para a situação pela perspectiva de quem está dentro do ônibus.

O passageiro não escolhe o transporte público apenas porque gosta. Para muita gente, o ônibus é a única alternativa para chegar ao trabalho, estudar, buscar atendimento médico ou cumprir tarefas do cotidiano. Por isso, qualquer elemento que dificulte o embarque, a circulação ou a utilização do serviço precisa ser analisado com atenção.

E existe uma questão ainda mais ampla: Aracaju quer reduzir o número de carros nas ruas, mas está oferecendo um transporte coletivo capaz de convencer as pessoas a deixarem seus automóveis em casa?

Não basta dizer que o transporte público precisa ser fortalecido. É necessário torná-lo uma opção realmente competitiva.

Isso passa por ônibus em boas condições, pontualidade, segurança, acessibilidade, conforto, tarifas compatíveis e facilidade para embarcar e desembarcar. A catraca é apenas uma parte dessa equação, mas simboliza uma preocupação maior: o sistema precisa estar estruturado em torno das necessidades do usuário.

Também merece atenção a discussão sobre a postura do município diante das empresas responsáveis pela operação do transporte. Existem contratos, obrigações e questões judiciais que precisam ser respeitados. Mas, acima de qualquer disputa, existe um princípio que não pode ser esquecido: o transporte público é um serviço destinado à população.

O município tem o dever de fiscalizar, cobrar qualidade e defender o interesse coletivo.

Se uma medida é considerada prejudicial aos passageiros, ela precisa ser discutida com seriedade. Se existe uma decisão judicial em andamento, cabe ao poder público explicar à população o que está sendo feito e quais são os argumentos envolvidos.

O pior cenário é o usuário ficar no meio de uma disputa que não compreende e continuar sendo quem suporta as consequências.

Aracaju precisa mudar a lógica do debate sobre mobilidade.

Em vez de pensar apenas em como acomodar cada vez mais carros, a cidade precisa pensar em como tornar o transporte coletivo tão eficiente e confortável que o cidadão escolha utilizá-lo.

Porque cada pessoa que deixa o carro em casa representa menos um veículo nas ruas, menos pressão sobre o trânsito e, potencialmente, uma cidade mais fluida.

Por isso, a discussão sobre catracas duplas não deveria ser tratada como um detalhe.

Ela faz parte de uma pergunta muito maior: o transporte público de Aracaju está sendo pensado para as empresas que o operam ou para as pessoas que precisam utilizá-lo?

A resposta deveria ser óbvia.

No transporte público, o passageiro não pode ser visto como parte do problema. Ele precisa ser a razão para o sistema existir.

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